Uma das vantagens de voltar a faculdade quando se está nas faixa dos 30 é que estudar passa a ser uma escolha prazerosa, você já consegue associar o que aprende à vida real, e o melhor: você pode se sentir, às vezes, com 18 anos.
É bom lembrar que esses às vezes exclui: quando você estiver na presença de familiares, quando você quiser mostrar pro seu professor que é experiente e pode ser uma boa lembrança em uma indicação, quando você for convidado para um churrasco que dura todo um final de semana e lembrar que tem uma esposa em casa te esperando.
Bem, eu curto muito essa oportunidade de conhecer gente nova, abrir a cabeça, se manter informado com o que anda rolando por aí, ser um deles, mas nunca de regredir. E ando pensando seriamente até onde posso ir para não ser a velhota chata casada com o tiozinho da turma.
Quando eu estava na faculdade e não precisava me preocupar com nada, eu não preocupava. Tinha churrasco toda quarta, onde a metade da sala era viciada, a outra metade bêbada, e alguns gatos pingados tão animados que ficavam tocando Raul para ninguém ouvir.
Também tinha muita pegação. O garoto mais velho era sempre o mais admirado, o mais inacessível, o mais misterioso, e no final, acabava traçando todas mesmo. Até aquela menina que achava que ele não ia sair das páginas do seu diário. Até ela. De vez em quando ele saia, dava umas escapulidas.
Por isso, é bem dificil não ter ciúmes. Quando as meninas passam a adicionar no facebook. Quando os trabalhos passam a ocupar as tardes também. Eu até que controlo muito bem. Sempre acreditei que ciumes é demonstração de uma insegurança por aquilo que você seria capaz de fazer. Então a pergunta é retórica.
Quando eu dormi na casa dos meus colegas de grupo para terminar um trabalho, eu estava fazendo algo de errado? Não. Quando eu sai a noite para conhecer melhor a cidade só com meus amigos homens, eu estava fazendo algo de errado? Não. Quando eu não usei a aliança porque esqueci em casa quando tirei para tomar banho, estava fazendo algo de errado? Não.
Então deixa ele viver a vida dele. Deixa ter um pouco 18 anos. Cabular aula para beber no barzinho. Esquecer de pagar as contas ou fazer a compra de supermercado. E fique feliz por compartilhar com ele estes momentos de alegria única.
Você pode ser a esposinha mais maravilhosa do mundo e o esforço nem é tãoooo grande. Afinal, só falta 1 ano, 9 meses e 23 dias.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
De volta
Eu tinha que levar o notebook em uma viagem de 9 horas. Finalmente o notebook estava consertado depois de meses. Custou bem mais barato por termos recuperado os arquivos em uma cidade do interior. Na capital, é o quádruplo do valor. Na capital, não recuperariam as fotos de 1 ano morando na Europa. Eles iam priorizar o portfólio. Pode ser mais útil algum dia. Se desta vez eu fizer logo um backup. Ficou mais barato ainda porque foi meu pai que pagou. Assim como o ônibus que peguei pra ir vê-lo no final de semana, para comemorar o aniversário surpresa.
O ônibus que foi bem confortável na ida, apesar de eu não dormir a noite como antigamente. Mas que não era o mesmo ônibus da volta. Este não tinha 2 andares. Este não cabia minha mochila na parte de cima. Será porquê a mochila voltou com 3 calças a mais, 2 camisas, um presente pro nego, um vidro de pimentas com vinagre, e o notebook com o carregador? Pode ser. Mas agora eu teria de aguentar as consequências.
Uma delas era levar a mochila nos meus pés, sem me esquecer que em 9 horas eu não poderia pisar sobre ela nem uma vez. Por isso fiquei com os pés no ar. O joelho um pouco mais alto. E o careca da frente baixou o banco como se não se importasse de estar deitado no meu colo. Não literalmente. Mas estava. Eu fitei a sua testa durante todo o percurso. Fitei a testa pra não me concentrar no ronco. Aliás, todos roncavam.
Mal saímos da cidade e todos naquela sinfonia bafenta. Menos um senhor. 80 e poucos anos. Um grito desesperado e sem ar com o menino do lado. "- Me deixa levantar. Preciso ficar de pé. Não sabia que era tão abafado". E o menino todo preocupado, embora sonolento, começou a cuidar dele como a um avô. "- O senhor está com 2 blusas, tire uma. O senhor quer uma maçã? O senhor quer trocar de lugar comigo? O senhor quer uma almofada que molda no pescoço? Pode usar. Tenho 2. É muito boa. Você vai melhorar, só faltam 8 horas e 42 minutos."
Bom saber, pensei eu. Um pensamento um pouco alto, eu acho. Porque o moço que estava sentado do meu lado, de 2 metros e alguma coisa, que também não conseguia caber, disse: "- Vai ser dificil. Meus joelhos já estão doendo." E eu queria responder: É, não cabe. Tente pensar na sua namorada que ficou pra trás, toda chorosa e ciumenta, fazendo coraçãozinho Restart enquanto o ônibus deixava a rodoviária. Mas eu só disse: É. E pensei em como sou antipática. Tadinho dele, tentou ser simpático, tentou ser complacente com a nossa dor. Mais dele do que a minha dor. E eu disse: É.
Pelas tantas meu documento caiu. Eu não podia me mover. Já comecei a imaginar as horas na fila que eu perderia fazendo outra carteira de motorista que demoraria meses pra ficar pronta e eu precisaria dela no próximo dia, pois eu tinha um exame de colonoscopia, e isto.... bom, forcei minha mão, estendendo cada dedo, contraindo os músculos, até que achei o documento. O que a gente não é capaz de fazer quando visualiza um dedo no cú.
O busão ainda atrasou um bocado. Só podia ser motorista mineiro mesmo. Disse para a mulher que tentou parar no km 53: "-Se eu parar pra você vão começar a abusar. Já entramos na civilização minha querida, e não sou táxi". Se fosse comigo eu ia chorar. Mas bem que achei um tanto engraçado.
Não tão engraçado quanto na manhã anterior, quando fui comprar as calças com o meu pai na boutique, e a dona me convidou pra ser modelo das suas roupas Moda Maior. O que tinha tudo para ser um elogio, resolvi encarar como o fim da picada. Apenas agradeci o convite dizendo: "- Eu não moro em Uberlândia". E ela: "- Nem por mil reais por desfile?"
É gente, contrariando a todos que disseram que o exame seria tenso, foi super tranquilo. Nós mulheres sofremos muitooo mais durante o mês do que em um dia qualquer (ainda mais liberada do serviço). Afinal, eu estava dormindo mesmo. Se me violentaram, só se foi no bolso: - Seu plano não cobre a biopsia do polipto.
Ainda bem que meu notebook voltou. O jeito é googlar: NOVAS MANEIRAS DE TE ROUBAR ENQUANTO VOCÊ DORME. E torcer para a doida que disse: não se preocupe, é uma espécie de câncer mas pode ser beligno, se aposentar o quanto antes.
O ônibus que foi bem confortável na ida, apesar de eu não dormir a noite como antigamente. Mas que não era o mesmo ônibus da volta. Este não tinha 2 andares. Este não cabia minha mochila na parte de cima. Será porquê a mochila voltou com 3 calças a mais, 2 camisas, um presente pro nego, um vidro de pimentas com vinagre, e o notebook com o carregador? Pode ser. Mas agora eu teria de aguentar as consequências.
Uma delas era levar a mochila nos meus pés, sem me esquecer que em 9 horas eu não poderia pisar sobre ela nem uma vez. Por isso fiquei com os pés no ar. O joelho um pouco mais alto. E o careca da frente baixou o banco como se não se importasse de estar deitado no meu colo. Não literalmente. Mas estava. Eu fitei a sua testa durante todo o percurso. Fitei a testa pra não me concentrar no ronco. Aliás, todos roncavam.
Mal saímos da cidade e todos naquela sinfonia bafenta. Menos um senhor. 80 e poucos anos. Um grito desesperado e sem ar com o menino do lado. "- Me deixa levantar. Preciso ficar de pé. Não sabia que era tão abafado". E o menino todo preocupado, embora sonolento, começou a cuidar dele como a um avô. "- O senhor está com 2 blusas, tire uma. O senhor quer uma maçã? O senhor quer trocar de lugar comigo? O senhor quer uma almofada que molda no pescoço? Pode usar. Tenho 2. É muito boa. Você vai melhorar, só faltam 8 horas e 42 minutos."
Bom saber, pensei eu. Um pensamento um pouco alto, eu acho. Porque o moço que estava sentado do meu lado, de 2 metros e alguma coisa, que também não conseguia caber, disse: "- Vai ser dificil. Meus joelhos já estão doendo." E eu queria responder: É, não cabe. Tente pensar na sua namorada que ficou pra trás, toda chorosa e ciumenta, fazendo coraçãozinho Restart enquanto o ônibus deixava a rodoviária. Mas eu só disse: É. E pensei em como sou antipática. Tadinho dele, tentou ser simpático, tentou ser complacente com a nossa dor. Mais dele do que a minha dor. E eu disse: É.
Pelas tantas meu documento caiu. Eu não podia me mover. Já comecei a imaginar as horas na fila que eu perderia fazendo outra carteira de motorista que demoraria meses pra ficar pronta e eu precisaria dela no próximo dia, pois eu tinha um exame de colonoscopia, e isto.... bom, forcei minha mão, estendendo cada dedo, contraindo os músculos, até que achei o documento. O que a gente não é capaz de fazer quando visualiza um dedo no cú.
O busão ainda atrasou um bocado. Só podia ser motorista mineiro mesmo. Disse para a mulher que tentou parar no km 53: "-Se eu parar pra você vão começar a abusar. Já entramos na civilização minha querida, e não sou táxi". Se fosse comigo eu ia chorar. Mas bem que achei um tanto engraçado.
Não tão engraçado quanto na manhã anterior, quando fui comprar as calças com o meu pai na boutique, e a dona me convidou pra ser modelo das suas roupas Moda Maior. O que tinha tudo para ser um elogio, resolvi encarar como o fim da picada. Apenas agradeci o convite dizendo: "- Eu não moro em Uberlândia". E ela: "- Nem por mil reais por desfile?"
É gente, contrariando a todos que disseram que o exame seria tenso, foi super tranquilo. Nós mulheres sofremos muitooo mais durante o mês do que em um dia qualquer (ainda mais liberada do serviço). Afinal, eu estava dormindo mesmo. Se me violentaram, só se foi no bolso: - Seu plano não cobre a biopsia do polipto.
Ainda bem que meu notebook voltou. O jeito é googlar: NOVAS MANEIRAS DE TE ROUBAR ENQUANTO VOCÊ DORME. E torcer para a doida que disse: não se preocupe, é uma espécie de câncer mas pode ser beligno, se aposentar o quanto antes.
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