terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cada vogal para sua consoante.

Eu faço amor com as palavras como se dali fosse nascer um filho.

É um amor maternal que tenta compreender a sua origem e ao mesmo tempo carnal, vibrante, deleite para minha lingua.

Primeiro as fito, como se com apenas um olhar pudesse despir os maus entendidos.

Depois as uso como substantivo dos meus versos até que se tornem verbos.

Pensamentos soltos, meio a tanta ação. Uma pausa pela capacidade de ainda conseguirem me surpreender em todo o seu significado.

E é exatamente pela sua falta de exatidão que me pego transtornada de paixão, de um jeito subliminar.

Exaustas (eu e as palavras) de tanto combiná-las e tentar entendê-las, acabo deixando que algumas me escapem. (Confesso que chego a perder o sono quando isso acontece).

Porém, o momento de exclamação sempre chega, e embora eu prefiro deixá-lo meio que subentendido para não mostrar toda exitação, a verdade é só uma: já estou entregue.

E quando elas se levantam, com um pé já fora da porta, forçando não olhar para trás. Eu grito: não vá.

Às vezes me pego parada, com os olhos fixos no papel, olhando suas curvas, seus trejeitos, seus anseios.

E agradeço por fingirem tão bem me fazendo acreditar que as domino quando na verdade sem elas sou pouco, ou quase nada.

Nananinanão

Quantos "nãos" você escuta por dia?
Quantos deles você ouve de si mesmo?

Quanto você consegue disfarçar?
Quanto as veias do seu pescoço parecem não suportar?

Até onde um não te faz voltar atrás?
Quanto ele pode te empurrar pra frente?

Quando um não quer dizer sim?
Quando um não é não mesmo. NÃO maíusculo com ponto final?

Quando um não é uma alavanca que vai te impulsionar a correr atrás dos seus sonhos?

Quando um não é para o bem, para evitar um mal maior?

Quando um não é apenas um obstáculo para dar mais valor ao sim?

Quando um não é sinal de que está preparado para fazer melhores escolhas?

Quando um não é o que você precisava para criar forças, ganhar coragem, tomar jeito?

Quando um não é desafiador?
Quando é promissor?

Quantos "nãos" você escutou hoje?
Quantos você disse?

Quantos foram para valer?
Quantos foram sem querer?

Não, não, não, não, não.
É preciso ouvir não para aprender a dizer SIM.

De ovo virado

Qual é exatamente a hora certa?
Qual o momento de uma irmã visitar a sua família que não encontra há anos?
Qual o critério que os EUA usam para escolher quem deve ou não entrar no país deles?

Que MÃE eles costumam ter por lá que os fazem pensar que as nossas abandonariam o filho só pra trabalharem ilegal numa terra sem alma?
Depois dão a desculpa que é porque essa mãe não tem nenhum bem no seu nome. Quer bem maior do que o seu próprio filho?

Mesmo que doa, nos arranque rios de lágrimas e gritos de covardia, só nos cabe se prender ao incompreensível. Acreditar que tudo acontece para o nosso bem.

Porque se não tiver qualquer outro motivo atrás de tantas injustiças, porque se tudo for apenas uma questão de "eu não estou feliz, que se foda o resto do mundo", se tudo for uma questão de leis e poderes e gente que não é capaz de lidar com o poder que tem. Bom, aí é melhor viver só. Mesmo.

Penas de ganso

Não tenho dormido bem.
Mas também não tenho comido bem.
Trabalhado bem.
Tratado bem meus amigos.

Não tenho encontrado sentido e vivo constantemente com uma saudade infinita de não sei o quê alojada aqui no peito.
Como quando você sente desejo de comer alguma coisa diferente mas com cheiro de conhecido e por mais que você procure, nada vai ter aquele gosto.

Não tenho dormido bem.
Acordo no meio da noite, pesada, angustiada, encalorada.
Como se eu tivesse fugido de um sonho ruim, mas continuasse com aquela boca amanhecida, amargando a sensação de que amanhã (fatalmente) vou acordar mal humorada.

Não tenho dormido bem.
E este que era o momento mais esperado do meu dia, agora não passa de uma confusão entre chutar lençóis, dobrar o travesseiro, encontrar a melhor posição para os braços, as pernas, a barriga, os sonhos sem legenda.

Não tenho dormido bem.
Queria que meu sofá fosse de 3 lugares.