terça-feira, 8 de julho de 2008

07 VAN 07

Hoje é o meu quinto dia nesta cidade. Minha aula passou para às 11h. Começou a bagunça. Tá parecendo São Paulo. Sorte minha que entrei na internet. Porque para uma pessoa que estava dormindo de favor na casa de outra, na maior mordomia, não seria legal madrugar na agência à toa.
Só porque deixei minhas malas no Hugo nunca precisei tanto delas. Hoje choveu muito e toda essa chuva não deixou de me molhar inteira. Andei como uma camela maroquina. Até a CENTRAL STATION. De lá até a MIAMI. Da MIAMI até LEINDSPLEIN. De lá até a Imobiliária. Da DUWO até a PINDAKAAS. E de lá até on BOAT. Tudo isso debaixo de chuva, com um frio tremendo e mais uma vez sem internet, consequentemente sem qualquer maneira de conectar com o nego (tenho que comprar um cabinho como aqueles plugs de telefone).
Neste momento queria deixá-lo despreocupado, porque agora tenho onde morar. Aprendi a abrir a janela da cabine, ganhei junto com o pacote de aluguel um kit pra cozinha como panela, pratos e garfos; e um para a cama. Com certeza fez falta uma toalha porque acabei de estrear o chuveiro e foi o banho mais inoportuno da minha vida. Me enxuguei no lençol e como funciona com chuveirinho, não cai água de cima pra baixo, tive que passar rodo em todo o banheiro depois.
Já me acostumei com o tamanho do quarto. Por hoje pelo menos, enquanto está limpo, está bem agradável, não vai me sufocar. Quero ver só quando chegar as malas. Não tem espaço pra nada. E acredito que devo ter que separar o lixo já que só no quarto tem 2 lixeiras gigantes.
Quanto às aulas: hoje conheci todos meus professores. Eles me fizeram muitas perguntas. Como são donos de grandes agencias me senti na obrigação de impressionar. E isso não deu nada certo. Já me cansa ter que entendê-los por 8 horas intermináveis, imagina ainda conversar com eles?
Já passaram um exercício criativo hoje e tudo que eu espero é que ao menos tenha entendido o dever de casa. Se eu começar fazendo o certo é um pulo pra eu tentar depois fazer o meu melhor.
Alguma horas eu pensava: não vou agüentar nem 1 semana ou eles vão perceber que não domino o idioma. Mas pra quem tem até professor chinês e outro alemão me sai bem. Não o suficiente pra conseguir um estágio.
A Maja e o George (namorado Grego dela) foram uma ótima companhia hoje. Até me ajudaram a fechar o contrato do aluguel deste quarto. Ela é uma menina doce e gentil. Parece bem dinâmica e atenciosa. Espero mesmo que sejamos grandes amigas.

QUARTO DIA

Finalmente compreendi porque não gosto do domingo. Nem aqui ou em qualquer lugar do mundo. Tudo fica deserto. Como se todos tivessem que ficar dentro de casa. Como se Deus tivesse liberado esse dia improdutivo pra o mundo parar. E eu que ainda não tenho onde morar, nem minha família por perto, preciso ficar no meio da rua com 2 malas pesadíssimas, bolsas e sacolas a esperar alguma luz.
Descobri que comprei um celular bloqueado e que vou ter que ir até a loja reclamar e tentar trocar. Isso me fez ficar ainda mais distante do mundo a minha volta. Fui perguntar para o gerente do hotel se ele sabia como eu fazia pra usar e ele me mostrou que só em caso de emergência. Terminei perguntando se tinha como eu ficar mais um dia hospedada no quarto onde eu estava mas ele deu uma de engraçadinho e disse que já haviam reservado meu quarto para os próximos dias mas por eu ser muito linda e ter olhos maravilhosos eu poderia ficar na casa dele se quisesse. Por esse motivo e por tantos outros estou deixando agora o hotel, indo a procura de outro pra ficar no máximo mais 1 dia, se for possível. Queria deixar minhas malas na casa da namorada do Hugo porque isso facilitaria muito pra eu andar por aí atrás de um lugar pra morar. Mas ainda estou esperando ele. Faz 2 horas agora.
Meu pai que não dorme mais faz 1 ano de preocupação com a gente. Hoje estava às 5h da manhã me esperando no messenger pra me auxiliar em todas as dicas que eu precisava pedir. Ele sempre está lá pra mim. E tudo que eu queria dizer pra ele, era: despreocupasse. Seus filhos estão no caminho certo graças a você meu pai tão querido.
Se estiver alguma coisa aberta por aqui hoje, vou trocar meu celular e voltar a fazer ligações para as imobiliárias.
Estou bem disposta ainda mas tenho que revelar que com certeza é porque sei que ainda tem muita coisa pela frente e não devo esmorecer. Por isso ainda não chorei, não sinto saudades ou qualquer dor no peito que dificulte meu progresso. Tenho que sair vitoriosa dessa e vou até onde meu limite permitir. Estou muito bem, obrigada. Certa de que muitos pensamentos amorosos chegam aqui até a mim.
Hoje o dia está mais nublado, mas não deixa de estar bonito. Sinto fome de coisa saudável e acabei de comprar um água com gás (não vi a embalagem, éca) pra matar a minha sede. Comi alguma coisa que me fez mal ou estou tão ansiosa que tive uma forte cólica logo cedo, seguida de diarréia. Por isso, preciso me hidratar melhor.
Amanhã vou conhecer meus novos colegas de Miami e quem encontrar o que estou procurando em forma de SOLUÇÃO.
Depois de 2 horas o Hugo chegou pra me ajudar com as malas. Por indicação do nego eu iria dormir no Bull Dog, mas como tive a chance de um plano B topei na hora ir dormir na casa de uma amiga Alemã. Tem dois coelhinhos fofos nesta casa. Tirei muitas fotos dos jardins deles.

TERCEIRO DIA

Eu tenho uma observação a fazer. Hoje choveu o dia todinho, mas continua quentíssimo. Lavo meu cabelo e ele fica seco em 10 minutos. Minha mãe sabe bem que isso é inacreditável.
No supermercado não te dão sacolas então compre o que conseguir carregar.
E quase nunca aceitam cartão. Por isso preciso decorar a bendita senha pra retirar dinheiro quando preciso.
Não fale com estranhos. Eles vão te chamar pra sair depois do expediente ou fazer uma proposta de casamento.
Por quase o mesmo motivo, compre comida no mercado. Nos restaurantes trabalham homens, ou mesmo o que compra como, por exemplo, um refrigerante gelado pode custar 2 euros, enquanto quente custa 19 centavos de euro. Ou seja, estou tomando quente mesmo.
Para madrinha Mara, descobri porque quase tudo aqui começa com VAN. É como de fosse de tal lugar a tal. Tipo lugar de origem.
Estou cansada de procurar apartamento e não poder confiar nas pessoas. Desde Goiânia achei um pela internet com a localização ideal (pertinho da Miami), espaço de sobra e tudo muito bonito pra ser verdade. Fui visita-lo depois de entrar em contato com o proprietário. Mas me esqueci de um pequeno detalhe. Pelos e-mails que trocamos ontem ele está na África e a esposa com a filha em New Jersey. Quer 700 euros pra me mandar as chaves e a documentação. Conversei com ele sobre honestidade e queria muito aquele apartamento. No entanto, eu não tenho verba pra arriscar por ai. Acho que perdi. Que pena. Digo, infelizmente mesmo.
Amanhã às 11h tenho que fazer o check-out e não tenho pra onde ir. Espero só que o Hugo consiga chegar na hora certa pra me ajudar com as malas pesadas que apropósito não tenho onde deixar.
Hoje o dia não começou bem. Preciso começar a pensar numa senha de SOS ou usar minha cara de mal. Fui acordada por um telefonema que pensei que fosse da recepção. Não sabia que horas era. Será que dormi tanto assim e o Hugo já chegou?
Levantei o mais rápido possível, troquei de roupa e como não tinha olho mágico na porta. Abri. Um rapaz bem alto estava na minha porta com um controle remoto. Custei a entender o que ele queria. Fingi que não falava inglês. Enquanto ele dizia: teste o controle, não funciona, quero ver um filme. Eu entrei no meu quarto e usei o controle dele. Como eu previa: funcionou. E ele tentou entrar no meu quarto forçando o corpo com seu peso. Eu empurrei ele e joguei longe o controle. Ele fedia a Jack Daniels. Me tranquei no quarto e fiquei quietinha, embora tenha ficado muito nervosa. Liguei o notebook pra olhar as horas. Eram 7h20 da manhã. Não peguei mais no sono.
Mais tarde, fui numa feirinha na rua em frente e comprei uma bata de 2 euros, lindíssima. Foi o que salvou no meu dia. Depois que a vesti fui esperar o Hugo na recepção. Esperei 2 horas. Se eu soubesse teria ficado no quarto.
Enquanto esperava na recepção um homem veio da rua, entrou no hotel, me deu seu telefone e me propôs casamento. Que coisa!
Enfim, depois de esquentar bem o sofá e a cabeça, o Hugo chega com a namorada. Levina diz que aqui se cumprimenta com 3 beijinhos. All right. Ela um doce, simpática e bem direta. Veio porque estava com ciúmes. Mais do que de imediato eu mostrei pra ela minha aliança. I am fianceé 3 days ago. So happy. (I am Ellen Pitillo take you Alexandre Salinas to be my husband). E ela me levou na rua em que precisava ver o apartamento. De lá pegamos o trem n´[úmero 17 sentido casa do Hugo pra comprar um celular. Foi melhor assim. Agora posso falar com meus pais sem me expor tanto e economizando um bocado. Além de que é um Sansung vermelho fofinho. 0681456067
Hoje comi castanha de caju com Coca quente e um donuts de sobremesa. Melhor do que a rúcula com patê de soja de ontem. O homem que me vendeu o Donuts ofereceu um emprego. Também queria me dar um café de graça e um colar, mas não aceitei. Lógico.
Agora estou aqui. Vou falar com meu amor logo mais. (Tem uma menina de toalha no corredor e pelada. Que loucura!) Espero que esteja tudo bem com meu noivo e que as emoções por hoje tenha acabado. Preciso fazer mais ligações para imobiliárias. I am a homeless. Sem teto no meu País.

SEGUNDO DIA

Quem tem boca vai a Roma. Bom, ainda não cheguei lá mas ainda ontem consegui trocar de quarto. Saí de um cubículo para uma mega cama de casal pelo mesmo valor. Estou satisfeita agora. I just arrive from Brazil and will meet Joana in Pindakaas now. (Acho que o nome da agência quer dizer amendoin. Um bom lugar pra uma elefantinha faminta, não?)
Hoje acordei às 11h, tomei um banho demorado e usei um enxaguatório bucal (ainda não achei a pasta de dentes na mala). Não deitei na banheira porque lembrei do nego. Se ele estivesse aqui acharia anti-higiênico que eu fizesse isso. Ieca.
Então sequei minha franja e peguei o ônibus 21 em direção ao Central Station. Hoje o motorista não era o Ron, infelizmente. Ele me deu muitas dicas ontem, como comprar um bilhete de ônibus mais barato. O individual custa 2,40 euros e serve pra 1 hora, mas já usei 8 vezes em 3 dias, rsrs. Ainda não comi nenhuma refeição. Aqui é tudo caro demais. Uma água custa 2,50 euros o que convertido em reais é demais. Os supermercados fecham muito cedo. Ou eu perdi a noção do tempo. Não sei ao certo. 5 horas de fuso não é fácil. Então, ontem às 20h consegui uma vaguinha no hotel que estou (Slotania hotel) e falei 20 minutos com o Dad. Ele parecia sedento por noticias e eu com muitas saudades. Ao meu lado estava uma brasileira: Aninha de Lucca, que mora em Portugal há 2 anos. Foi muito receptiva e me deu um guia sobre a cidade, além de altas dicas. Foi quando percebi que tinha algo errado com meu quarto além da falta de janela, ar-condicionado e TV.
A agência que vou estudar fica numa rua que se pronuncia Rirá. Descobri que ao contrário do que pensávamos Singel são todos os canais com os riozinhos. Não só uma rua ou bairro específico. Cheguei enfim na Miami. Parece um casarão abandonado mais inspira criatividade. Não me senti muito confortável lá. Mas não vejo a hora de chegar segunda-feira às 9h da manhã. My heart beat harder.
Me indicaram a DUWO, uma imobiliária. Estou indo pra lá falar com a Irene. Ela reservou um quarto pra mim em um barco. Será que devo me aventurar a tanto?
Agora estou no BeB lunchroom, comendo rúcula com pimenta. E para espanto de todos está muito gostoso. Preciso comprar um cartão pra ligar em outras imobiliárias e também ir ao supermercado.
No caminho 3 meninas me pararam e perguntaram se podiam rezar pra mim. Juntas, no meio da praça, pedimos para eu encontrar logo um lugar seguro e confortável e para que a saudade da minha família por mim não fosse tão doida. Elas irão se encontrar para um piquenique no domingo. Fui convidada, mas não vou. Tenho outras prioridades e infelizmente não posso confiar em ninguém por enquanto.
Peguei o primeiro trem da minha vida para Duwo. Lá a atendente me mandou pra conhecer o barco, onde moram 200 estudantes. Fica em um bairro afastado, mas me deu um mapa pra me localizar. Custa 370 euros por mês por 1 quarto minúsculo, mas se for a única opção, eu topo.
Voltei correndo pra ligar para os meus pais. Estava atrasada. Sorry. Lá não tinha telefone. Gastei 5 euros com o cartão. I need other place to live and share for three months with a girl. I would like to know soon.

PRIMEIRO DIA

A viagem atrasou um pouquinho, mas depois de 22 horas enfim, cheguei em Amsterdam.
Achei que nada fosse me incomodar. Fazia 19 graus e eu surpreendentemente conseguia me comunicar muito bem. As malas chegaram sã e salvas, tirando alguns arranhões. E só faltava eu pegar o trem até o hotel reservado. A imigração só pediu pra ver a carta de que eu viria estudar na Europa e conferiram 4 vezes meu passaporte, mas até aí, tudo ótimo. Eu hora só felicidade quando decidi enfim avisar minha família que havia chegado e estava maravilhada. O cartão não funcionava no aeroporto. Depois de parar vários estrageiros questionando Do you know how can i call to brazil? Eu percebi que eu teria de arranjar outra forma de ligar. Desisti de carregar minhas malas que pesavam mais de 24 quilos cada pela cidade afora e peguei o primeiro táxi para o hotel slotania.
O táxi, top de linha, era uma BMW zerinha com teto solar, o taxista não ficava pra trás. Conversamos bastante e ele me indicou uma casa pra morar por 400 euros. Peguei o telefone e se eu conseguir enrolar no Alemão quem sabe o locatário não alugue pra mim. Isso é outros 500, ops 400.
Do táxi ao hotel fiz vários malabarismos pra conseguir carregar as malas. Uma mocinha muito prestativa que passava na rua foi quem me ajudou.
Enfim o recepcionista que só falava japonês verificou minha reserva e me mandou pro quarto 187. Lá vou eu na luta com as malas em um carpete super velho de um corredorzinho estreito. Era eu e as malas. Enquanto no fim do corredor polancos faziam uma fila como se estivessem drogados. Todos de óculos de sol e praticamente sem roupa, me encarando. Passei por eles como se não existissem. Até que um perguntou se eu era Marroquina e fingir não entender afinal seriam meus vizinhos barulhentos.
Nesta hora eu só sabia agradecer ao meu pai por ter alugado um quarto single.
(vide fotos do quarto). Só pra começar me deram um cartão pra abrir a porta quando eu precisava mesmo era de uma chave. E depois que consegui explicar e abrir a porta, eis que deparo com um espaço que cabia somente a minha cama, sem tv, sem ar-condicionado e o chuveiro que mal saia água molhando o reduzidíssimo espaço que restava. Já era 3h32 eu estava com fome e agora muito, muito calor.
Sai pra arranjar uma maneira de ligar aos meus pais. No caminho passei por um saguão com computadores e foi quando percebi que justo esse hotel não tinha rede wi fii.
Atravessei a rua e consegui enfim uma maneira de ligar pros meus pais. Ao pedir a ajuda a um atendente lhe disse que era brasileira. A partir daí tudo que ele tentou foi trocar os 1 euro e 50 da ligação por uma visita amigável até o hotel.
Mas uma vez tive que fingir de besta e corri pro meu quarto. Se posso chamá-lo assim. Os meninos drogados ainda me esperavam no corredor. Seriam inofensivos se eu soubesse como lidar com eles mas preferi ignorar. Tranquei minha porta 3 vezes e entrei debaixo do chuveiro de calcinha e sutiã. Tudo porque tenho a leve impressão que a rua toda pode me ver nua daqui.
Agora já faz mais de 30 graus. Estou derretendo. Vou vestir uma roupa mais leve e mesmo tonta com esse fuso horário pretendo enfrentar a cidade até o Centro. De lá vou procurar uma lan house pra mandar notícias e sinal de vida. E por fim tentar achar a agência que fica na região Singel e dizer pra qualquer responsável. Por favor, me ajudem a encontrar um lugar pra morar e uma menina pra dividir o apê comigo.
Bem, é isso. Acabo de comprar uma máquina nova. Vou testá-la por aí e volto antes de anoitecer. Medooooo.

Saudades da normalidade,
Ellen Pitillo.